Financiamento

Juros de obra da Caixa: como a conta é feita e por que ela sobe

A fórmula está na cláusula 4.10 do contrato, e quase ninguém mostra. Aqui ela está aberta, com um caso real de Uberlândia mês a mês.

MT Marco Túlio · CRECI/MG 7469 · · ⏱ 9 min de leitura
Gráfico da cobrança mensal de juros de obra subindo de R$ 145 para R$ 952 ao longo de 36 meses, contra a parcela de R$ 1.164 depois das chaves

Sou o Marco Túlio, corretor em Uberlândia (parceiro da Torrano, CRECI/MG nº 7469). Se você comprou na planta pela Caixa e está olhando uma cobrança mensal que sobe todo mês enquanto a obra mal saiu do chão, esta página é para você. A conta existe, tem fórmula, e a fórmula está no seu contrato. Vou mostrar onde.

A resposta curta: o juros de obra não é calculado sobre o preço do apartamento nem sobre o percentual da obra. Ele é calculado sobre o quanto a Caixa já repassou para a construtora por conta do seu financiamento.

Como a Caixa libera o valor do terreno logo na assinatura, você já paga juros no primeiro mês, com a obra em 0%. E como o repasse cresce junto com a obra, a cobrança cresce junto.

Onde está a fórmula no seu contrato

Muita gente reclama, com razão, que ninguém explica essa conta. Mas ela não é secreta. Li um contrato de financiamento da Caixa assinado em 2026, na modalidade de aquisição de terreno e construção, e a regra está lá, na cláusula 4.10:

Cláusula 4.10 · contrato Caixa (modelo MO30229) "Os encargos relativos a juros e atualização monetária [...] durante a fase de construção, são calculados sobre o saldo devedor apurado no mês, que corresponde ao montante desembolsado à Construtora referente ao valor de financiamento do terreno, quando houver, e pela obra executada, de modo que sofrerão variação sempre que ocorrer liberação de parcelas."

Está tudo ali: montante desembolsado à construtora, terreno, obra executada e varia a cada liberação. Se você tem um contrato de imóvel na planta pela Caixa, procure o item 4.10 e o item 5.1.2. Vale mais que qualquer explicação de vendedor, inclusive a minha.

A conta, em quatro linhas

1. Base do mês = valor do terreno + (valor financiado − valor do terreno) × % da obra
2. Juros = base do mês × (taxa anual ÷ 12)
3. Correção monetária = base do mês × TR do mês
4. Cobrança = juros + correção + tarifa de administração + seguro MIP

O contrato descreve exatamente essa composição no item 5.1.2: durante a obra você paga juros e atualização monetária sobre o saldo devedor apurado no mês, mais a tarifa de administração, mais o prêmio do seguro MIP. Repare no que não entra: amortização. Você não está pagando o apartamento ainda. Está pagando pelo dinheiro que a Caixa adiantou para a obra sair.

A amortização só começa depois, e aí a composição muda (item 5.1.3): passa a ser prestação de amortização e juros, tarifa de administração, seguro MIP e seguro DFI, que cobre danos físicos do imóvel e antes não existia porque o imóvel também não existia.

O caso real: o que acontece em 36 meses de obra

Uma cliente me passou o contrato dela da Caixa para eu conferir a conta. Não vou publicar nada que a identifique, mas os números da operação contam a história inteira. É um apartamento de R$ 260 mil em Uberlândia, com R$ 165.673 financiados pela Caixa, taxa de 6,5% ao ano e 36 meses de prazo de obra.

Mês da obraObra executadaBase de cálculoCobrança do mês
10%R$ 16.567R$ 145
1215%R$ 39.294R$ 268
1850%R$ 90.960R$ 548
2484%R$ 142.626R$ 828
36100%R$ 165.674R$ 952

Simulação minha sobre os dados do contrato, com a obra evoluindo em curva S (devagar na fundação, rápido no meio, devagar no acabamento) e o terreno estimado em 10% do valor financiado. O ritmo real da obra muda os valores de cada mês. Não é o extrato da Caixa: é a conta da cláusula 4.10 aplicada.

Somando os 36 meses, dá cerca de R$ 20 mil. Vinte mil reais que ninguém coloca na planilha da compra, porque não aparecem em proposta nenhuma.

E repare no fim da curva: a última cobrança de obra, R$ 952, chega a 82% da parcela que ela vai pagar depois das chaves, que é de R$ 1.164. Ou seja, no último ano de obra ela já está pagando quase uma prestação, sem ainda ter o apartamento.

Por que a cobrança sobe se a obra não andou

Essa é a pergunta que mais aparece, e tem duas respostas.

1. O terreno já foi pago

A modalidade do contrato é "aquisição de terreno e construção". O terreno entra no desembolso na assinatura, antes de qualquer tijolo. É por isso que no mês 1, com a obra em 0%, a cobrança não é zero: no caso acima, são R$ 145.

2. A medição não é a mesma coisa que o desembolso

A Caixa libera parcela conforme o cronograma físico-financeiro aprovado pela engenharia dela. Etapas iniciais consomem muito material caro, e o percentual de obra que te informam nem sempre acompanha, no mesmo mês, o dinheiro que já saiu. O contrato é explícito: a cobrança varia "sempre que ocorrer liberação de parcelas", e não sempre que a obra sobe um andar.

O que realmente muda essa conta (e não é a obra)

Rodei o mesmo empreendimento e o mesmo prazo mudando só duas variáveis. O resultado é o que mais me impressionou:

CenárioFinanciadoTaxaTotal em 36 meses
Contrato real (entrada alta)R$ 165.6736,5% a.a.cerca de R$ 20.100
Mesmo imóvel, entrada mínimaR$ 208.0006,5% a.a.cerca de R$ 24.800
Mesmo imóvel, fora do programaR$ 208.00011% a.a.cerca de R$ 40.500

Duas conclusões que valem dinheiro de verdade:

  • Entrada maior derruba o juros de obra. Financiar R$ 42 mil a menos economizou cerca de R$ 4.700 só de juros de obra, além de baixar a parcela depois. A cliente do caso real pagou a entrada à vista para a construtora, e isso reduziu a base sobre a qual a Caixa cobra.
  • A taxa pesa mais que tudo. O mesmo apartamento, na mesma obra, com a mesma entrada, custa o dobro de juros de obra fora do Minha Casa Minha Vida. Se enquadrar no programa não é detalhe burocrático: é metade dessa conta.

O que não muda a conta é o percentual da obra em si. Ele decide o ritmo, não o total. No fim, você paga juros sobre o valor financiado inteiro, mais cedo ou mais tarde.

A cláusula que quase ninguém conhece: obra atrasada

Cláusula 5.3 · contrato Caixa "O(s) DEVEDOR(ES) ficará(ão) exonerado(s) do pagamento dos encargos mensais [...] caso ocorra atraso no prazo previsto [...] superior a 6 (seis) meses para a entrega do imóvel, imputando-se diretamente à CONSTRUTORA / INCORPORADORA [...] a responsabilidade pelo pagamento desses valores, até a efetiva entrega do imóvel."

Leia de novo, porque é importante: se a obra atrasar mais de seis meses além do prazo contratado, o juros de obra deixa de ser seu e passa a ser da construtora. O contrato ainda prevê (item 4.9) que o prazo pode ser prorrogado uma única vez, em até seis meses, e só mediante análise técnica e autorização da Caixa.

Se o seu empreendimento estourou esse prazo e a cobrança continua caindo na sua conta, leve o contrato à agência. Não é favor, é cláusula.

Cinco coisas para conferir antes de assinar

  • O prazo de construção (letra B.7.1 do quadro resumo). Ele define por quantos meses você vai pagar o juros de obra e a partir de quando conta o atraso.
  • A taxa de juros nominal ao ano (letra B.8). É ela que multiplica tudo. Peça para comparar com e sem enquadramento no programa.
  • O valor financiado (letra B.4.1), que não é o preço do imóvel. É sobre ele, e só sobre ele, que a conta corre.
  • A tarifa de administração mensal (letra F). No contrato que li, R$ 25 por mês, cobrados durante a obra e depois dela.
  • Se o empreendimento tem registro de incorporação. Sem ele não existe financiamento associativo, e isso é o primeiro item que eu confiro em qualquer lançamento.

Quer ver quanto sobra da sua renda?

O simulador calcula a parcela depois das chaves. O juros de obra vem antes dela, e eu monto essa parte com você.

Abrir o simulador →

Comprar na planta ainda vale a pena?

Vale, e eu vendo na planta. Mas não vale fingir que o juros de obra não existe. Do outro lado da conta você tem: preço de tabela mais baixo que o do pronto, escolha de andar e posição, entrada diluída ao longo da obra e a taxa travada hoje. No caso real que mostrei aqui, R$ 20 mil de juros de obra num apartamento comprado por R$ 260 mil que já foi avaliado em R$ 284 mil pela própria Caixa.

O problema nunca foi o juros de obra. Foi ninguém dizer o número antes. Se você está olhando um lançamento em Uberlândia e quer essa conta feita com os números da sua proposta, antes de assinar, me chama. Prefiro perder uma venda a te colocar numa parcela que você não esperava.

Se ainda está no começo, veja também quanto de entrada você precisa e como funciona o financiamento pela Caixa em Uberlândia.

Perguntas frequentes

O que é juros de obra ou taxa de evolução de obra?

É a cobrança mensal que você paga à Caixa durante a construção de um imóvel comprado na planta. Ela é composta por juros e atualização monetária sobre o valor que a Caixa já repassou à construtora, mais a tarifa de administração e o prêmio do seguro MIP. Não inclui amortização: você ainda não está pagando o imóvel, está pagando pelo dinheiro adiantado para a obra.

Como a Caixa calcula o juros de obra?

Pela cláusula 4.10 do contrato, os juros incidem sobre o saldo devedor apurado no mês, que corresponde ao montante desembolsado à construtora, ou seja, o valor do terreno mais a parte da obra já executada. A conta é: base do mês igual ao terreno mais o financiamento restante multiplicado pelo percentual da obra; juros igual à base vezes a taxa anual dividida por doze; mais correção pela TR, tarifa de administração e seguro.

Por que o juros de obra aumenta se a obra quase não andou?

Por dois motivos. O primeiro é que a Caixa libera o valor do terreno já na assinatura, então você paga juros desde o primeiro mês mesmo com a obra em zero por cento. O segundo é que a cobrança acompanha a liberação de parcelas segundo o cronograma físico-financeiro aprovado pela engenharia da Caixa, e não o percentual de obra que a construtora informa.

O juros de obra pode ficar maior que a parcela do financiamento?

No fim da obra ele chega perto da parcela. Num contrato real que analisei, de R$ 165.673 financiados a 6,5% ao ano, a última cobrança de obra ficou em cerca de R$ 952 contra uma parcela pós-chaves de R$ 1.164, ou seja, 82%. Com taxa mais alta e entrada menor, a proporção sobe. Peça sempre a projeção antes de assinar.

Pagar mais entrada reduz o juros de obra?

Sim, e bastante. Como a cobrança incide sobre o valor financiado, financiar menos reduz a base de cálculo. No exemplo que fiz, financiar R$ 42 mil a menos no mesmo apartamento economizou cerca de R$ 4.700 de juros de obra ao longo de 36 meses, além de baixar a parcela depois das chaves.

Se a obra atrasar, eu continuo pagando o juros de obra?

Não, se o atraso passar de seis meses. A cláusula 5.3 do contrato da Caixa diz que o devedor fica exonerado do pagamento dos encargos mensais quando o atraso na entrega supera seis meses, e a responsabilidade passa para a construtora ou incorporadora até a entrega efetiva. Se isso acontecer com você e a cobrança continuar, leve o contrato à agência.

Quanto tempo dura a cobrança do juros de obra?

Dura o prazo de construção previsto no contrato, na letra B.7.1 do quadro resumo. No contrato que analisei são 36 meses. Findo o prazo de construção e legalização do empreendimento, começa a amortização, e a cobrança passa a ser a prestação normal com amortização e juros.